Por trás do jogo

Colunista convidado: Ângelo Acauã – jornalista e engenheiro civil

Para quem cresceu acostumado ao Maracanã e suas instalações “clássicas”, assistir uma partida no Engenhão é quase um programa turístico. Sim, porque não se parece com nada do que existe de estádio no Rio de Janeiro, e mesmo nos outros Estados da federação.

Aliás, vamos falar o que é verdade: o Engenhão não se parece nem com o seu entorno, chega a ser um choque: aquela obra monumental, belíssima, no mesmo nível dos melhores estádios europeus – conheço alguns – isolado no meio do nada, sem qualquer preparo, sem qualquer indício de administrador desenvolvido, seja ele da malha urbana, no caso, a prefeitura, seja ele do Botafogo, o arrendatário.

É bem verdade que o complexo do estádio foi planejado com características multiuso, permitindo competições de várias modalidades, notadamente atletismo e futebol. Só que, além da obra em si, o plano envolvia a completa revitalização de uma região degradada e relativamente populosa, embora predominantemente formada por edificações baixas, com poucos pavimentos, mas fáceis de remanejar.

Isto posto, vem o Brasil com cara de Índia, não a que se desenvolve, mas a que mergulha nas águas imundas: a obra foi caríssima, mega superfaturada. A reurbanização foi conversa pra boi dormir: as ruas em volta continuam apertadas, a estação ferroviária que desemboca na porta do estádio sequer ganhou o acesso suspenso ao estádio. A auto-estrada que margeia o estádio também não recebeu nenhuma alça de ligação com a área e, pra fechar, os trajetos e pontos da rede de ônibus não sofreu nenhuma alteração que mereça destaque.

Vai daí que dá pena, pois a única saída aparente para o Brasil continua sendo o Galeão, lamentavelmente!

Só para ser prático, vai uma comparação passo a passo entre o moderno estádio João Havelange e o Estádio do Dragão, pertencente ao Futebol Clube do Porto. A comparação é necessária, dada a onda de padronização de estádios segundo os critérios da FIFA e do COI. Pode parecer mera piração arquitetônica, mas o objetivo por trás das diretrizes é simplesmente permitir fácil acesso, conforto, comodidade, saída controlada, rapidez e, claro, segurança ao público.

Assim, tomando como exemplo as obras para o PAN 2007, lembro de reuniões de que participei a respeito das obras do Maracanã: entre os principais problemas do estádio havia a inclinação da arquibancada, o tempo de saída do público, o impacto viário no horário das partidas, instalações como banheiros, emergência médica, camarotes, telões e sistema de som. O Engenhão praticamente atende a todas essas exigências, exceto pelo sistema de som, precário.

Voltando às comparações, o Engenhão, o mais moderno da América Latina, inicialmente orçado em R$ 60 milhões, teve um custo final mais de seis vezes do esperado, R$ 380 milhões, algo em torno de 150 milhões de euros, inteiramente pagos pelo Estado, para entregar uma arena com capacidade total para mais de 46 mil pessoas sentadas.

A iluminação é impecável, mas os banheiros pecam por portas minúsculas, com o mesmo tamanho da casa da gente, só que para um fluxo muito maior de pessoas. O resultado é engarrafamento de gente para entrar e sair do banheiro, pasmem. O sistema de som deve ser copiado do Maracanã, ninguém ouve nada direito. Na época do PAN, colocaram um sistema provisório, muito bom, mas foi retirado.

A inclinação é a mesma dos estádios modernos, incluindo os europeus. Confesso que não é muito confortável, exige cuidado, pois é muito íngreme. O objetivo é permitir que o todo público o público visualize ao espetáculo com a maior proximidade possível. E aí, entra uma constatação que parece piada de português: em qualquer lugar do estádio o jogo só é visto de longe. O motivo? A ampla pista de atletismo que circula o gramado. Antes que alguém apele para a obviedade, esclareço que teria sido perfeitamente possível e administrável a construção de um sistema de conversão, isto é, gramado a maior parte do ano para os jogos de futebol, com sua substituição ou cobertura com revestimento nas épocas de competições outras.

O telão é pequeno e mal definido. na hora da substituição, não dá para entender nada. E o que é exibido ali, é muito ruim, pois a geração é pobre, com poucas câmeras, não é a mesma da televisão, ou seja, o carioca continua assistindo a show de imagens só quando viaja.

Já o Estádio do Porto custou cerca de 98 milhões de euros, dos quais apenas 18,5 milhões pagos pelo Estado. Sua capacidade é de 50 mil lugares, ambientados com um sistema de som de última geração, com 65.000 Watts, painéis eletrônicos rotativos de 48 m², sendo também o primeiro estádio europeu a conseguir a certificação “GreenLight”, por sua utilização racional de energia e na qualidade da iluminação, algo existente no Brasil só em sonho.

Sobre o tempo de saída, equipes de trabalho foram à Europa cronometrar a saída do público em diversas competições e voltaram espantados com evacuações em condições absolutamente normais se passando em 7 ou 12 minutos. Se comparado ao Maracanã ou ao Engenhão, dá pena. No caso deste, o motivo é mais por burrice da administração: portões semi-abertos, passagens interrompidas, catracas mal posicionadas e, claro, desorganização protagonizada pelos organizadores.

Na área externa, o caos é a marca do Engenhão: se uma família quiser almoçar antes de uma partida ou chegar rapidamente em casa logo após, esqueça, não vá. O vazio de transportes, a confusão nos pontos de ônibus, o fluxo sofrível nos estacionamentos (o oficial é insuficiente) e nas ruas torna a aventura num verdadeiro programa de índio. Uma alternativa, a que recorro para assistir ao Fluminense, é parar no Norte-Shopping, me distrair num dos bares e andar um ou dois quilômetros até o estádio.

Já no Porto, na beira do estádio há estação ferroviária que funciona, com pelo menos 3 linhas diferentes e uma passarela impecável de acesso ao estádio. Os trens passam em intervalos regulares e estações não ficam superlotadas e em plataformas apertadas, como na estação do Engenho de Dentro.

Se o sujeito for de carro, uma auto-estrada similar à Linha Amarela, mas com conexões para todo o país, saídas muito bem sinalizadas e três faixas de rodagem a mais, dá ao motorista pelo menos três oportunidades de acesso ao estádio sem o tradicional “droga, tô perdido!”.

Para quem chega um pouco antes, o Engenhão oferece o “podrão na carrocinha” ou a rede de alimentação existente no Norte-Shopping, distante um ou dois quilômetros do estádio. É nesse espaço que eu normalmente deixo o carro, tornado ponto de encontro da torcida tricolor nas vésperas das partidas do virtual campeão brasileiro. Dali, ou se anda um bom pedaço até o local da partida ou estica o braço e pega um táxi ou uma Kombi, sei lá (sic).

No Estádio dos Dragões, construído em uma área anteriormente ainda mais degradada, há um moderníssimo shopping interligado (foto em anexo), com arquitetura elíptica e estacionamento grátis. É comum as famílias se dividirem: “eu ficarei passeando enquanto você vai ao jogo. Depois a gente se encontra”.

Não é preciso falar muito da experiência de assistir a um jogo na Europa. O ingresso pode ser comprado pela internet ou na hora, com dinheiro ou cartão de crédito/débito. Os lugares são marcados e isso é respeitado (na Argentina também). No Brasil, seja no Maracanã, no Engenhão e em mais de 20 estádios, há mais de 4 anos o controle de ingressos é feito por uma empresa com mais de 40 processos na justiça, envolvendo falsificação, mal funcionamento, fraudes e vícios no processo licitatório. Basta comprar o ingresso e entrar na fila pra perceber o quanto isso representa: empurrra-empurra, várias roletas sem funcionar, ingresso engolidos, máquinas travadas, pessoas pulando a rola, pessoas passando por baixo, grades criando currais, poucas entradas funcionando, guichês funcionando parcialmente e moeda de plástico, nem pensar. Ingresso pela internet? Pode até ser, mas tem que pagar taca de conveniência, quando a lógica sugere que valor deveria ser mais baixo, dada a facilidade e o menor custo operacional.

O torcedor é tão vibrante quanto o nosso, talvez até mais agressivo (não confundir com marginais escondidos em torcidas organizadas), só que o estádio não tem alambrado e o campo não é invadido. Se algo acontecer, o torcedor é preso, o clube perde pontos e o mando de campo. No Brasil, isso até acontece, mas depois a justiça desportiva alivia.

Enfim, sempre que penso em futebol, 2014, 2016, penso: “táxi, pro aeroporto, por favor!”.