Feira de São Cristóvão: um novo balcão de negócios?

*Christine Pedra

A Feira de São Cristóvão é um espaço de intercâmbio cultural de tradições nordestinas. Mas a palavra tradição, hoje em dia, esbarra em outro conceito atual da feira: modernidade. O forró de cores, sons e cheiros pra todos os gostos, agora também, para os negócios ganha uma nova roupagem. Essa modernidade surge graças aos recursos tecnológicos e às diversas expressões culturais inevitáveis. Com a desorganização e a falta de higiene das barracas no entorno da Praça de São Cristóvão, a Prefeitura do Rio em 2003, reformou e fez um contrato de concessão de uso para que a feira se instalasse dentro do Pavilhão. O acordo seria: gerencia da feira pela Associação dos Feirantes e para que toda a expressão nordestina ali fosse cultuada. O pavilhão recebeu o nome de Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, em homenagem ao Rei do Baião. Os mais de 600 estabelecimentos devem, portanto, ter como princípio não um negócio qualquer visando fins lucrativos, mas sim o de trazer e divulgar no Rio de Janeiro, uma grande parte do Brasil: a região Nordeste.

Para entrar, na também conhecida como, ‘Feira dos Paraíbas’ você já passa por um portal eletrônico que é um detector de metais. É segurança para todos. Percorrendo a rua principal notamos que nos restaurantes envidraçados, além de ar condicionado todos têm uma tela de TV de última geração pendurada. Pratos regionais e da cozinha internacional são oferecidos no cardápio e as reuniões de ‘homens de negócio’, como conta um gerente de restaurante, são frequentes durante os almoços semanais. Receita certa para os negócios dos clientes e dos proprietários. Só que ainda não estão usando a comanda dos pedidos eletronicamente, e isso requer um software além de equipamento, mas com certeza por pouco tempo. Rápidos e eficientes, os aparelhinhos logo aparecerão, e se a conta já está cara, como os freqüentadores nordestinos que vão até lá para lembrar a sua terra natal. A maioria reclama dos preços, que agora estão mais altos.

Chegando ao ponto central do Pavilhão, na Praça do Catolé, nos deparamos com o duelo dos repentistas e, acima deles, um telão. Improvisam poesia e música num desafio de criação de versos ‘de repente’ com microfones possantes, pois a disputa de sons é acirrada. A loja ao lado, de CDs e DVDs, com seus equipamentos ligados, apresentam shows de rock, pagodes, axé e até mesmo músicas regionais, com altíssima qualidade de som e imagem. Na praça, o que nos remete mais ao nordeste mesmo é um quiosque em formato de caminhãozinho, lembrando os ‘paus de arara’, com livretos de literatura de cordel pendurados com pregadores de madeira. Nos dois palcos principais, aonde acontecem os shows, os equipamentos são de alto nível, caixas de som, microfones de alta potência, sintetizadores modernos, luzes e holofotes diversos para o palco, e tantas outras parafernálias eletrônicas necessárias para o desempenho dos atores. Nas ruas laterais, vemos bares e boates com lâmpadas estroboscópicas, bolas de espelhos que giram (lembrando uma discoteca) e equipamentos de karaokês, com telões de alta definição. Até mesmo aonde rola o forró pé-de-serra de acordeão, triângulo e zabumba. E não é à toa que o diretor do departamento Cultural da Feira, Carlos Botelho, mais conhecido como Marabá, diz que “quando se faz um show de música de outros ritmos, por aqui, temos que ter pelo menos dois outros shows já marcados de nossa música nordestina”.

Os tradicionais chapéus de palha ou os de couro, em formato de coco, usados pelos antigos cangaceiros podem ser vistos à venda junto com bonés Nike, Reebok, ou qualquer outra marca conhecida internacionalmente. As sandálias feitas em couro cru trabalhado e sola de borracha de pneus estão lado a lado com as Riders e as Havaianas. As redes de dormir com barras trabalhadas, os tapetinhos trançados, os paninhos bordados e outras rendinhas mais ficam expostas ao lado das camisetas esportivas com escritos em inglês. E os vestidos, dignos de algumas butiques dos grandes shoppings, não são de algodãozinho ou chita, não. Até mesmo batas indianas, vestidos bordados e com lantejoulas aplicadas, podem ser comprados na feira.

As mercearias e açougues mantêm os produtos tradicionais do nordeste como as carnes secas penduradas junto com diversas lingüiças, os peixinhos secos em feixes, os camarões secos, o queijo coalho em grandes blocos quadrados, as diferentes farinhas, os feijões de todo tipo, os doces e biscoitos. Mas tudo é vendido e pesado em balanças digitais. Não usam mais as tradicionais, de dois pratos e pesinhos dourados. Virou antiguidade. E há também os equipamentos de refrigeração para o estoque dos produtos. Energia, diversão e diversificação com custo que não é mais de feira popular.

*Estudante de Jornalismo Online da UniverCidade